Transformação urbana da Praça Vidal de Negreiros em João Pessoa

Tava me lembrando aqui de uma disciplina de projeto urbano que cursei em 2014, durante um intercâmbio na Espanha. A turma era formada quase inteiramente por estudantes estrangeiros: italianos, franceses, vários brasileiros e até um chinês. Tinha também alguns espanhóis (poucos, apenas uns mais abertos que se misturavam com os intercambistas).

O exercício proposto pelos professores era simples: desenvolver um projeto de requalificação para um bairro residencial considerado “decadente”. Pra começo de conversa, esse termo precisa ser relativizado. Para os padrões espanhóis, decadência significava basicamente falta de manutenção em alguns edifícios e espaços públicos um pouco negligenciados, nada comparável aos processos de degradação urbana que a gente está acostumado a ver.

O interessante estava menos no problema urbano em si e mais na forma como cada grupo de estudantes lidava com ele.

Os brasileiros – eu incluso, tinham a tendência de organizar as nossas propostas a partir de diagnósticos bem familiares para as disciplinas de Desenho Urbano: análise de usos do solo, leitura de fluxos, identificação de áreas com potencial para comércio ou serviços. As soluções quase sempre caminhavam na mesma direção de introduzir usos mais dinâmicos em áreas predominantemente residenciais, estimular algum grau de mistura de funções, ativar a vida urbana por meio de novos estabelecimentos comerciais. Chegou ao ponto de um professor (um senhorzinho com seus mais de 60 anos, que depois passei a admirar) criticar o viés capitalista das nossas propostas, baseadas na visão neoliberal americana de Janes Jacobs.

Os estudantes espanhóis e italianos pareciam muito mais interessados em trabalhar com a dimensão paisagística dos espaços. As propostas frequentemente envolviam a reorganização das áreas verdes, a criação de novos percursos ou uma redefinição da relação entre os edifícios e os espaços abertos.

Quem realmente chocava, deslocando a lógica dos projetos, eram os franceses. Eles pareciam muito menos preocupados com as limitações que a gente automaticamente assumia como postas. Em alguns casos, chegavam a propor intervenções bastante radicais na topografia do terreno, criando pequenas colinas artificiais que permitiam deslocar os estacionamentos dos moradores para estruturas subterrâneas sob as áreas públicas. A partir dessas operações surgiam novos espaços coletivos no interior das quadras, umas espécies de paisagens construídas que criavam ambientes de convivência relativamente protegidos do tráfego e da lógica mais dura da rua.

Me lembro de ter ficado bastante impressionado com esse tipo de proposta. Não apenas pela criatividade e inventividade formal, mas pelo contraste com a maneira como nós, brasileiros daquela turma, parecíamos trabalhar dentro de um conjunto muito mais estreito de possibilidades – pra não chamar de quadrado. Em parte isso vinha da nossa própria formação. Durante a graduação, qualquer tentativa de solução mais fora da caixinha ou “diferentona” costumava ser rapidamente podada por argumentos já tão batidos: balanços estruturais são caros, movimentações de terra são caras, determinadas soluções são inviáveis do ponto de vista construtivo. O pragmatismo era a lei. Ao mesmo tempo, outras ideias pareciam se repetir quase automaticamente: incentivar o uso misto a qualquer custo, apostar na vitalidade do comércio, imaginar que bairros boêmios vão ser sempre desejáveis, mesmo quando isso implique conflitos evidentes com a vida cotidiana dos moradores (a Espanha é lotada de cartazes escritos “queremos dormir!” em zonas de atividades mais mistas).

Já faz mais de dez anos dessa situação, e durante muito tempo tratei aquela experiência como só mais um episódio caricato da graduação. Mas, sempre que observo alguns projetos urbanos recentes nas cidades brasileiras, tenho a sensação de que aquela diferença de repertório continua presente. Em muitos casos, continuamos operando dentro de um conjunto relativamente limitado de soluções, mesmo quando as condições urbanas mudam de forma significativa.

Foi pensando nisso que resolvi fazer um pequeno experimento usando ferramentas de geração de imagens por inteligência artificial. A ideia não era produzir um projeto urbano propriamente dito, mas explorar rapidamente algumas possibilidades espaciais para um lugar bastante conhecido em João Pessoa: a Praça Vidal de Negreiros, mais conhecida como Ponto de Cem Réis.

A praça passa hoje por um momento interessante de transformação. Um dos edifícios do entorno, que foi ocupado pelo movimento de moradia MLB após permanecer vazio por muito tempo, está sendo convertido em habitação, e cerca de cinquenta famílias do movimento devem passar a viver naquele trecho do centro da cidade. Só essa mudança já deveria provocar algumas perguntas sobre o futuro do espaço público ali existente. A presença de novos moradores inevitavelmente altera a relação da praça com o entorno: ela deixa de ser apenas um espaço de passagem ou de grandes eventos ocasionais e passa a integrar, de maneira mais direta, o cotidiano de quem vive ali.

Quando publiquei algumas imagens experimentais sobre esse espaço, um comentário de um arquiteto que trabalhou no projeto original da praça trouxe uma camada interessante à discussão. Segundo ele, o arquiteto Amaro Muniz, responsável pelo desenho da praça, costumava falar em diferentes “tipos de praça”, e o Ponto de Cem Réis teria sido concebido como uma espécie de praça cívica. Nessa leitura, a vegetação deveria permanecer nas bordas do espaço, preservando uma grande área central aberta capaz de receber eventos e enquadrar visualmente os edifícios patrimoniais mais importantes do entorno.

Formato da praça após reforma no final dos anos 2000.

Esse tipo de interpretação ajuda a lembrar que os projetos urbanos também são produtos de seu tempo. Durante muito tempo, a lógica dominante em intervenções desse tipo era justamente a de destacar edifícios considerados monumentais, mantendo-os relativamente isolados dentro da paisagem urbana. Em João Pessoa especificamente, essa leitura também dialogava na época com um uso muito específico do espaço público: a realização de grandes eventos culturais, como os shows do Projeto Seis e Meia ou do Estação Nordeste, que marcaram a vida cultural da cidade nos anos 2000.

Mas as cidades mudam, e com elas mudam também as formas de viver e usar os espaços urbanos (ainda bem). Hoje, com a introdução de novas moradias no entorno imediato da praça e com a redução da escala dos eventos realizados ali, talvez seja o momento de repensar qual deve ser a vocação predominante daquele espaço do Ponto de Cem Réis. A questão já não parece ser apenas como organizar grandes concentrações pontuais de pessoas, mas também como acomodar as dinâmicas mais cotidianas de vizinhança que começam a surgir naquele pedaço do centro.

A intervenção atualmente em execução pela Prefeitura de João Pessoa segue uma direção mais pragmática. As obras de requalificação da Praça Vidal de Negreiros vão se concentrar principalmente na renovação do piso, na recuperação do desenho original dos mosaicos, na instalação de novos postes de iluminação em LED e na introdução de alguns canteiros e árvores para reduzir a aridez do espaço. Na Rua Duque de Caxias, que se conecta diretamente à praça, a intervenção inclui a substituição do pavimento do calçadão, a reforma das jardineiras, a instalação de novos bancos e mesas de jogos e a adequação das superfícies às normas de acessibilidade.

Novo projeto apresentado pela Prefeitura.

Nada disso é irrelevante, é claro. Melhorar minimamente o conforto ambiental, garantir acessibilidade e recuperar elementos degradados são dimensões fundamentais da manutenção urbana. Ainda assim, chama atenção o fato de que a intervenção parece concentrar-se sobretudo em aspectos construtivos do espaço, sem necessariamente explorar com mais profundidade as transformações recentes do entorno, especialmente a introdução de novas moradias que tendem a alterar de forma significativa a vida cotidiana da praça.

Talvez seja justamente nesse tipo de situação que eu vejo se abrir um espaço interessante para gente experimentar outras formas de imaginar o desenho urbano. Não como substituição do projeto institucional (infelizmente), mas testar rapidamente algumas possibilidades espaciais e observar como pequenas mudanças no desenho poderiam alterar a forma de ocupação daquele lugar.

Recentemente, vi um comentário do urbanista Denis Pacheco que ajuda a colocar esse tipo de experimento em perspectiva. Para ele, a inteligência artificial pode funcionar como uma ferramenta de tradução territorial, algo capaz de ajudar diferentes atores a visualizar e discutir transformações possíveis em seus próprios bairros. Em vez de ser usada apenas para produzir imagens espetaculares ou cenários futuristas, a tecnologia poderia apoiar processos de mobilização local, permitindo que moradores, organizações e movimentos sociais experimentem visualmente alternativas para espaços ociosos ou subutilizados.

Experimento imagina o Ponto de Cem Réis para as pessoas moradoras que estão chegando.

Pensada dessa maneira, eu tendo a enxergar a inteligência artificial não mais como um recurso técnico de um projeto urbano, mas sim algo que passa a funcionar também como um dispositivo de imaginação coletiva. Ao facilitar a produção rápida de cenários espaciais, ela pode ajudar a ampliar o repertório de possibilidades que entram no debate sobre determinados territórios, especialmente em contextos onde o desenho urbano institucional costuma operar dentro de soluções relativamente padronizadas.

Talvez esse seja um dos usos mais interessantes dessas ferramentas: ninguém aqui tem interesse em substituir o trabalho de arquitetos ou planejadores, ou até fazer sem custos o trabalho de uma Prefeitura com projeto milionário, mas ajudar a municiar movimentos sociais, organizações comunitárias e outros atores urbanos com imagens e hipóteses espaciais capazes de alimentar discussões mais ricas sobre o futuro de seus territórios. Em vez de encerrar o debate sobre o que a cidade deve ser, a tecnologia deve servir justamente para abri-lo.

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